O preconceito como empecilho à ampliação dos recursos de cuidado: um problema de saúde pública – Hylton Luz

Os efeitos colaterais dos medicamentos, cada dia mais fortes e perigosos, especialmente nos casos em que o uso continuado e de longo prazo se faz necessário, é um dos fatores determinantes para o crescimento do medo de remédios e o abandono dos tratamentos.

A questão da “adesão aos tratamentos” é um aspecto muito debatido, especialmente nos casos de doenças crônicas, mas também no caso de tratamentos menos prologados e menos graves, no qual o medicamento químico é a única alternativa oferecida aos pacientes.

Por essa razão, os conceitos de integralidade da saúde e de complementaridade dos recursos de cuidado têm sido referidos como uma estratégia para o sucesso dos tratamentos, bem como uma forma de racionalizar e escalonar o emprego dos recursos.

Esses conceitos têm por princípio começar com práticas simples, aquelas menos agressivas e que se baseiam no emprego dos recursos acessíveis aos pacientes – seja porque que se encontram em seu ambiente, ou porque estimulam os meios de recuperação próprios ao organismo.

É com essa perspectiva, de ampliar os recursos, de cuidado, prevenção e tratamento, que a Organização Mundial da Saúde fomenta políticas públicas que estimulem a inclusão das práticas integrativas e complementares (PIC) nas ações e serviços de saúde pública.

Nesse sentido, não é casual o aumento da divulgação de resultados positivos e o desenvolvimento de pesquisas que abordam a aplicação de técnicas e práticas típicas das medicinas tradicionais.

A grande maioria dessas práticas e recursos de cuidados já é aplicada há centenas – e até milhares – de anos; portanto, são inquestionavelmente seguras quando selecionadas e praticadas de forma criteriosa e de acordo com as suas especificidades.

Por essa razão, se faz necessário que as instituições de educação e formação de recursos humanos superem preconceitos, uns arraigados na ignorância e outros fomentados pelos interesses da indústria química produtora das drogas, abrindo espaço para a qualificação daqueles que desejam exercer essas práticas no cuidado da saúde de terceiros.

Esse tema foi abordado de forma muito feliz em um recente artigo publicado nos Cadernos de Saúde Pública (v. 30, n. 11, 2014, pp. 2368-76, ISSN 0102-311X), disponível nesta página, onde o cientista Nelson Filice divulga os resultados de sua pesquisa, intitulada “Medicina baseada em evidência e medicina baseada em preconceito: o caso da homeopatia”.

Nesse contexto, é lamentável o desapreço do Ministério da Saúde pela implementação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, que estabelece, entre suas diretrizes, a regulamentação do processo de formação de recursos humanos em práticas integrativas e complementares.

 


Hylton Sarcinelli Luz – Veja mais artigos Médico homeopata, presidente e fundador da Ação Pelo Semelhante, organização da sociedade civil de interesse público que trabalha pela democratização da saúde.

Esculápio e a Saúde Pública no Brasil – Márcio Bontempo

Deus da medicina e da saúde para os gregos antigos, Esculápio teve duas filhas: Panacéia e Higéia, geradas com a função de cuidar da saúde dos mortais e a quem ensinou a nobre arte. A primeira tinha como princípio desenvolver e difundir recursos para tratar as doenças e a segunda, Higéia, ensinar os humanos a evitar as enfermidades, mas por meio da adoção de hábitos de vida naturais. Diz-se que elas viviam constantemente em conflito, para martírio do pai, que tentava a todo custo estabelecer a harmonia entre elas. De Higéia surgiu a palavra higiene e de Panacéia, a própria palavra panacéia, que tem o significado de remédio para todos os males. Curiosamente, é dos nomes e das características individuais das filhas de Esculápio, a origem das duas grandes correntes da medicina, uma voltada exclusivamente para a terapêutica (tratamento medicamentoso) e outra, para a prevenção, educação de hábitos, recuperação, manutenção e cuidados com a saúde (higiene).

Parece então que as medicina tradicionais antigas, até a época de Hipócrates, seguiram mais a escola de Higéia e menos a de Panacéia (restrita apenas a emergências e casos de acidentes, agravos, etc.), mas Galeno, médico grego do imperador romano Marco Aurélio, nítido devoto de Panacéia, divergindo do mestre Hipócrates, desenvolveu uma profusa farmacopéia sintomática, visando atender a nobreza romana nos seus males agudos derivados dos excessos e libações, ou seja, o sistema de Galeno não visava a recuperação integral da saúde e prevenção das moléstias, senão apenas tratar os sintomas. Nascia então uma prática que culminou no atual conceito-base da medicalização, cujo fundamento criou a indústria farmacêutica, dentro de um modelo de atenção à saúde centrado no médico (iatrocêntrico) e “hospitalocêntrico”, como expressão de uma visão biomédica cartesiana.

O ideal de Esculápio, até hoje, é estabelecer uma integração harmônica entre as filhas, o que significa inferir que a Medicina pode ser completa se unir as duas correntes, a terapêutica adequada e a prevenção. Diz-se que nos momentos em que Esculápio conseguiu um pouco de paz entre suas filhas, nasceram as grandes doutrinas médicas do passado, como o Aiurveda na Índia, a Medicina Chinesa, a Medicina árabe, egípcia, etc.

Quando foi criada a A Organização Mundial de Saúde, a princípio, Panacéia foi certamente a madrinha da instituição. Inicialmente, a visão do órgão internacional era fortemente centrada no medicamento como solução para todos os males da humanidade. Parecia que, com remédios, todos os problemas estariam solucionados. Ledo engano. Não resolveram. Foram exatamente as melhorias sanitárias e as ações fundamentadas em práticas de saúde culturalmente enraizadas que diminuíram a incidência e a prevalência das doenças infeciosas e não apenas o antibiótico, ou seja, resultado da ação de Higéia, certamente com uma pequena relativa ajuda da irmã.

Então a Organização Mundial de Saúde, desde Alma-Ata em 1978 (quando se definiu o fundamento da Atenção Primária à Saúde e a importância das medicinas tradicionais), colocou Higéia no pedestal das políticas internacionais de saúde, para desgosto da Indústria Farmacêutica amadrinhada por Panacéia.

Porém, tanto as ações de saúde quando a prática médica, sejam públicas ou privadas, seguiram obedecendo em grande parte à irmã ambiciosa de Higéia. E a briga continuou. Higéia, sempre amorosa e atenta, tendo inspirado já o Dr. Dawnson em 1920 (ver Relatório Dawnson, que estabelece as bases de uma visão social e da formação de redes de atendimento domiciliar ou descentralizado, realizado por equipes), prosseguiu na sua saga de produzir mudanças conceituais em termos de saúde pública para os governos. Mas sua irmã também não descansou. A indústria farmacêutica cresceu e, além da sua utilidade em descobrir novas drogas para salvar vidas, desenvolveu um forte sistema de lobbies nos governos, em sua ânsia de gerar imensos lucros com a exploração das moléstias. Panacéia ajudou. E fez isso principalmente através do ensino médico, trabalhando para manter sua característica cartesiana (ou flexneriana, como dizemos no jargão “sanitarês”), com forte foco na terapêutica medicamentosa. No Brasil, onde Panacéia tradicionalmente reinou absoluta, a força de Higéia começou a se tornar patente com os progressivos movimentos que desenvolveram o fundamento da Atenção Primária e o nascimento do Sistema Único de Saúde. Certamente era Higéia quem vibrava sobre as Conferências Nacionais de Saúde, ganhando tentos sobre sua irritadiça irmã, principalmente com a inclusão das Práticas Integrativas de Saúde na rede de atendimento. Paralelamente, Panacéia continuava a crescer com o avanço da tecnologia médica, tanto terapêutica quanto diagnóstica, dentro de uma visão reducionista do binômio saúde/doença.

Higéia insuflava na mente dos pensadores sanitaristas, principalmente no Brasil, o ideal da Reforma Sanitária e a postura corporativa e isolacionista de cada política pública como nociva do ponto de vista orçamentário e funcional. Mas Panacéia gosta de hospitais, de alta complexidade, de UTIs, de super especialistas, de médicos, de tomógrafos, sem conseguir entender que o processo de ultra-especialização do exercício médico gera uma tendência para a despersonalização da relação médico-paciente, favorecendo a perda da percepção integral da pessoa, relegando para segundo plano a dimensão social e psicológica do indivíduo, agora dividido em tecidos, órgãos, aparelhos e sistemas. Já Higéia ama agentes comunitários de saúde, equipes multidisciplinares, medicina natural, Terapia Comunitária Integrativa e médicos de família. Mas problemas e desafios persistem impedindo os avanços de Higéia, Por exemplo, a Equipe de Saúde da Família – cerne da Atenção Básica-, apesar das conquistas nos últimos anos, ainda enfrenta muitos entraves. Se Panacéia pudesse cuidar mais das emergências, da medicina tecnológica, da média e alta complexidade, etc. e Higéia da promoção e da educação em saúde, teríamos uma situação melhor, com o fomento do bem-estar e da qualidade de vida na base da sociedade, com isso a diminuição da procura dos serviços e a consequente redução dos enormes gastos públicos com a doença. Precisamos de medicamentos, mas o que certamente não precisamos é de um oneroso modelo de assistência demasiadamente centrado neles.

Claro que um modelo ideal de assistência à saúde depende de uma oferta de serviços que agrade ambas as deusas que, talvez não saibam, mas o pai certamente sim, que elas são os pratos de uma mesma balança.

Afora qualquer conotação maniqueísta ou polarizada quanto às características das deusas, percebemos que Panacéia continua muito forte na saúde pública brasileira, enquanto Higéia, depois de um bom avanço, parece ter agora empacado, uma vez que a Atenção Básica, com muitos problemas estruturais e funcionais, tem mostrado ares de estagnação. Higéia, contudo, ganha forças na maioria dos demais países. Então parece estar na hora de Esculápio olhar outra vez para o Brasil. Entonemos, pois, preces, odes e súplicas a Esculápio, na esperança que o deus nos acuda. Esculápio! Como um humilde servo mortal, por favor, ordene que Panacéia permita mais de espaço para Higéia neste sofrido país! Esculápio olhe essas filas nos hospitais! Olhe a falta de insumos! Olhe essa gente desassistida que espera meses por exames e cirurgias! Olhe a falta de uma gestão inteligente e de capacitação adequada para gestores em saúde, Esculápio! Olhe os lobbies de Panacéia no Congresso, Esculápio! Olhe os desvios de recursos do SUS, Esculápio! Olhe o descumprimento da Emenda 29! Protege a Portaria 971! Incute compromisso social e consciência cívica nas almas dos servidores, Esculápio! Olhe o sucateamento das unidades de saúde! Com todo o respeito, lance seus sagrados eflúvios sobre a saúde pública no Brasil, Esculápio! Esculápio, já que você nos inspirou na criação do nosso sistema de saúde, ó divino senhor, salve então o SUS!

Assina: Marcio Bontempo, seu humilde devoto e servo, discípulo de Hipócrates

 


 

Márcio Bontempo é médico, escritor autor de mais de 70 obras abordando saúde, qualidade de vida e alimentação natural.
É coordenador técnico da Frente Holística.
www.marciobontempo.com.br

Exames em excesso podem resultar em graves problemas à saúde

Com o foco muito mais na doença e nos sintomas do que na promoção da saúde, a medicina tem a tendência de tomar qualquer decisão apenas com um batalhão de exames, muitas vezes desconexos entre si, desconsiderando todas as dimensões do paciente.

Muitas vezes, com remédios e tratamentos invasivos, é possível parar um sintoma sem tratar da causa da doença. Assim, é uma questão de tempo para que a doença retorne “do nada”, levando o paciente a nova bateria de exames e remédios mais fortes e tratamentos mais invasivos.

O estado de tensão e estresse que o paciente pode ficar também passa a ser enorme, levando muitas vezes a automedicação, ansiedade e, novos problemas.

Veja esse artigo do Vida&Estilo e reflita sobre como vai a saúde:

Exames demais, saúde de menos

Paulo Camiz – Especial para O Estado de S. Paulo

05 Dezembro 2014 | 06h 00

Exames auxiliam na prevenção e no tratamento de doenças, mas são prejudiciais quando feitos em demasia e sem necessidade

Por mais cansativo que seja ir até um laboratório para a realização de exames, cada vez pacientes, em meu consultório, insistem para que eu peça a eles uma bateria de testes, mesmo sem necessidade. Quem não me pede exames, já os tem em mãos. Foram solicitados por outros colegas. O que eles querem de mim? Uma segunda ou terceira opinião. “Doutor, já realizei duas biópsias de fígado e nenhuma delas mostrou porquê meus exames estão alterados”, disse um paciente, dia desses. “Estou muito preocupado, pois notei que os resultados estão muito diferentes dos habituais, devo estar muito doente”, me relatou outro. Qual é a primeira coisa que faço diante de um paciente assim, que chega bradando suas preocupações sobre uma análise diagnóstica? Pergunto-lhe: “como vai? Tudo bem?”. E prossigo: “sabe, eu previa que os resultados seriam alterados. Como você me contou na outra consulta, está praticando atividade física regularmente. E isso muda tudo”.

Matthew Andersen/Creative Commons
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Exames demais podem causar ansiedade, câncer, sequelas de intervenções médicas desnecessárias, entre outros males e enfermidades.

Parece besteira, mas esse é o início de uma anamnese ou entrevista médica. Na minha opinião, uma boa consulta ainda é a maior ferramenta diagnóstica de um médico, não os exames complementares. Ainda que estes se façam bastante importantes, não podem substituir ou tirar a importância do exame clínico. Só a partir de uma boa consulta e da formulação de hipóteses diagnósticas os exames devem ser solicitados, de forma individual para cada paciente. Até mesmo ocheck up deveria ser personalizado de acordo com as queixas do paciente e seu histórico médico, principalmente a partir da meia idade, mas dificilmente é assim. Digo isso por diversas razões:
A primeira delas: evitar os “incidentalomas”, anormalidades encontradas por acaso num exame solicitado pelo medico para outro fim. Os campeões do momento são os nódulos de tireoide. Quando pergunto ao paciente o porquê de se ter realizado o ultrassom na glândula, a resposta que mais ouço é: “o meu médico é super cauteloso, ele sempre pede exame para tudo”. Perfeito. Se o exame vem normal, pode-se ter certa segurança de que tudo vai bem. Mas, e quando são detectados os tais nódulos? Em 99% das vezes eles são benignos e não causam mal nenhum- similares às manchas na pele. O problema é que ninguém aguenta, hoje em dia, viver com a dúvida. Para se certificar de que não há nada de errado com o nódulo, o paciente se submete a biópsias, repetição de exames, cirurgias e outros procedimentos desnecessários.

A segunda razão: exagerar nos exames pode desencadear enfermidades. Há pessoas, que fazem, por exemplo, um exame chamado PETScan (nos quais se recebe uma alta carga de radiação) por semestre na tentativa de “prevenir” câncer. Na verdade se estaria detectando um câncer, talvez num momento precoce, e não prevenindo. Enfim, suponhamos que depois de alguns semestres detecte-se um câncer num estágio inicial. Façamos a seguinte reflexão: o câncer foi detectado pelo exame ou foi causado por ele e a alta carga radiativa a que o paciente foi submetido? Provavelmente, os dois. Mas nesse caso, a prevenção causou a doença.

O PETScan é um dos exames com maior carga de radiação recebido pela paciente (cerca de 500 radiografias de tórax simples). As tomografias computadorizadas, cada vez mais disponíveis, equivalem uma exposição à cerca de 300 (trezentas) radiografias simples por exame. Será que o médico que está pedindo esse tipo de exame de forma recorrente está realmente preocupado com a saúde do paciente a longo prazo? Não estou de forma alguma desmerecendo o valor diagnóstico desses exames, estou apenas levantando um contraponto. Muitos exames são realizados para a prática da chamada medicina defensiva. Muitos testes, porém, são realizados porque é menos trabalhoso pedir o exame do que entrar em atrito com o paciente. Ou ter que explicar a ele tudo que está supracitado. Muitos são realizados por imprudência ou desconhecimento técnico do próprio médico.

O fato é que exames demais podem causar ansiedade, câncer, sequelas de intervenções médicas desnecessárias, entre outros males e enfermidades. Por isso, a Sociedade Americana de Medicina criou uma série de tópicos para facilitar o diálogo entre pacientes e médicos sobre a necessidade ou não de certos exames. A lista dos tópicos choosing wisely – escolha sabiamente, numa tradução literal, ainda não disponível em português -, contou com a aderência de quase todas as associações de especialistas dos Estados Unidos, abordando indicações e contra-indicações da realização de exames e procedimentos. Essa ainda é uma cultura nova nos Estados Unidos e também aqui no Brasil. No entanto, vale a reflexão sobre o tema. Não deixe de abordar o assunto com o seu médico.

Paulo Camiz é professor, clínico geral e geriatra da Universidade de São Paulo e Hospital das Clínicas de São Paulo