Estamos transformando problemas cotidianos em doenças mentais – Entrevista com Allen Frances, parte I

Entrevista com allen frances

A frase “Transformamos problemas cotidianos em transtornos mentais” talvez seja a grande síntese desta notável entrevista de Allen Frances para o jornal El Pais Brasil, a qual reproduziremos em três partes aqui na Frente Holística. Allan lançou um livro recentemente chamado “Salvando o Normal” no qual ele faz uma severa crítica ao Manual Diagnóstico e Estatístico, famosa bíblia da psiquiatria. Este manual é a base para definir os diagnósticos, ou seja, defini o que é doença e o que não é. Mas ele não é um crítico qualquer, altamente especializado em psiquiatria, ele foi o diretor da equipe que escreveu o 4º manual, logo podemos ter uma visão crítica desde dentro.

No site da Frente Holística já falamos sobre o excesso de medicação e seus possíveis tratamentos sem drogas. Esta entrevista fala como estamos perdendo a referência do que é um comportamento “normal”, ou seja, considerando todos os altos e baixos da existência humana. Poderíamos ir além e falar de uma visão holística do ser humano, compreendendo-o em sua complexidade e profundidade. Assim, doenças seriam um processo a ser compreendido como um todo, não apenas como um desequilíbrio a ser corrigido de forma maquinal, seja ele biológico ou psíquico. Nisto, a medicina covêncional e as práticas integrativas em saúde só te a contribuir uma com a outra.

Quanta riqueza a indústria farmacêutica já acumulou para si de forma indigna, apenas estimulando a doença? Quantos seres humanos perfeitamente saudáveis que poderiam ter vidas plenas foram indevidamente diagnosticados e medicados, levando para toda a vida o rótulo de “doentes” e “desequilibrados”, dependentes de drogas para serem “normais”? É a medicalização da vida, indicada por Allen.

Quantas pessoas que realmente necessitavam de tratamento não tiveram oportunidade para tê-lo de forma digna porque a gestão pública gastou exageradamente em casos desnecessários? E por ai vamos nos questionando, e o quadro continua e piora.

É parte dos objetivos da Frente Holística mudar esse quadro no Brasil, estimulando um novo paradigma em saúde, mais integral e amplo, focado na promoção da saúde, e informar e educar a sociedade para que tenha conhecimento do quadro atual.

Leia a a primeira parte da entrevista abaixo e deixe as suas opiniões nos comentários. Acompanhe a Frente Holística na página do Facebook.

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

Transformamos problemas cotidianos em transtornos mentais

Catedrático emérito da Universidade Duke comandou a redação da ‘bíblia’ dos psiquiatras

Allen Frances (Nova York, 1942) dirigiu durante anos o Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM), documento que define e descreve as diferentes doenças mentais. Esse manual, considerado a bíblia dos psiquiatras, é revisado periodicamente para ser adaptado aos avanços do conhecimento científico. Frances dirigiu a equipe que redigiu o DSM IV, ao qual se seguiu uma quinta revisão que ampliou enormemente o número de transtornos patológicos. Em seu livro Saving Normal (inédito no Brasil), ele faz uma autocrítica e questiona o fato de a principal referência acadêmica da psiquiatria contribuir para a crescente medicalização da vida.

 

Pergunta. No livro, o senhor faz um mea culpa, mas é ainda mais duro com o trabalho de seus colegas do DSM V. Por quê?

Resposta. Fomos muito conservadores e só introduzimos [no DSM IV] dois dos 94 novos transtornos mentais sugeridos. Ao acabar, nos felicitamos, convencidos de que tínhamos feito um bom trabalho. Mas o DSM IV acabou sendo um dique frágil demais para frear o impulso agressivo e diabolicamente ardiloso das empresas farmacêuticas no sentido de introduzir novas entidades patológicas. Não soubemos nos antecipar ao poder dos laboratórios de fazer médicos, pais e pacientes acreditarem que o transtorno psiquiátrico é algo muito comum e de fácil solução. O resultado foi uma inflação diagnóstica que causa muito dano, especialmente na psiquiatria infantil. Agora, a ampliação de síndromes e patologias no DSM V vai transformar a atual inflação diagnóstica em hiperinflação.

 

P. Seremos todos considerados doentes mentais?

R. Algo assim. Há seis anos, encontrei amigos e colegas que tinham participado da última revisão e os vi tão entusiasmados que não pude senão recorrer à ironia: vocês ampliaram tanto a lista de patologias, eu disse a eles, que eu mesmo me reconheço em muitos desses transtornos. Com frequência me esqueço das coisas, de modo que certamente tenho uma demência em estágio preliminar; de vez em quando como muito, então provavelmente tenho a síndrome do comedor compulsivo; e, como quando minha mulher morreu a tristeza durou mais de uma semana e ainda me dói, devo ter caído em uma depressão. É absurdo. Criamos um sistema de diagnóstico que transforma problemas cotidianos e normais da vida em transtornos mentais.

 

P. Com a colaboração da indústria farmacêutica…

R. É óbvio. Graças àqueles que lhes permitiram fazer publicidade de seus produtos, os laboratórios estão enganando o público, fazendo acreditar que os problemas se resolvem com comprimidos. Mas não é assim. Os fármacos são necessários e muito úteis em transtornos mentais severos e persistentes, que provocam uma grande incapacidade. Mas não ajudam nos problemas cotidianos, pelo contrário: o excesso de medicação causa mais danos que benefícios. Não existe tratamento mágico contra o mal-estar.

 

P. O que propõe para frear essa tendência?

R. Controlar melhor a indústria e educar de novo os médicos e a sociedade, que aceita de forma muito acrítica as facilidades oferecidas para se medicar, o que está provocando além do mais a aparição de um perigosíssimo mercado clandestino de fármacos psiquiátricos. Em meu país, 30% dos estudantes universitários e 10% dos do ensino médio compram fármacos no mercado ilegal. Há um tipo de narcótico que cria muita dependência e pode dar lugar a casos de overdose e morte. Atualmente, já há mais mortes por abuso de medicamentos do que por consumo de drogas.

 

Anúncios

Um comentário sobre “Estamos transformando problemas cotidianos em doenças mentais – Entrevista com Allen Frances, parte I

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s