Exames em excesso podem resultar em graves problemas à saúde

Com o foco muito mais na doença e nos sintomas do que na promoção da saúde, a medicina tem a tendência de tomar qualquer decisão apenas com um batalhão de exames, muitas vezes desconexos entre si, desconsiderando todas as dimensões do paciente.

Muitas vezes, com remédios e tratamentos invasivos, é possível parar um sintoma sem tratar da causa da doença. Assim, é uma questão de tempo para que a doença retorne “do nada”, levando o paciente a nova bateria de exames e remédios mais fortes e tratamentos mais invasivos.

O estado de tensão e estresse que o paciente pode ficar também passa a ser enorme, levando muitas vezes a automedicação, ansiedade e, novos problemas.

Veja esse artigo do Vida&Estilo e reflita sobre como vai a saúde:

Exames demais, saúde de menos

Paulo Camiz – Especial para O Estado de S. Paulo

05 Dezembro 2014 | 06h 00

Exames auxiliam na prevenção e no tratamento de doenças, mas são prejudiciais quando feitos em demasia e sem necessidade

Por mais cansativo que seja ir até um laboratório para a realização de exames, cada vez pacientes, em meu consultório, insistem para que eu peça a eles uma bateria de testes, mesmo sem necessidade. Quem não me pede exames, já os tem em mãos. Foram solicitados por outros colegas. O que eles querem de mim? Uma segunda ou terceira opinião. “Doutor, já realizei duas biópsias de fígado e nenhuma delas mostrou porquê meus exames estão alterados”, disse um paciente, dia desses. “Estou muito preocupado, pois notei que os resultados estão muito diferentes dos habituais, devo estar muito doente”, me relatou outro. Qual é a primeira coisa que faço diante de um paciente assim, que chega bradando suas preocupações sobre uma análise diagnóstica? Pergunto-lhe: “como vai? Tudo bem?”. E prossigo: “sabe, eu previa que os resultados seriam alterados. Como você me contou na outra consulta, está praticando atividade física regularmente. E isso muda tudo”.

Matthew Andersen/Creative Commons
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Exames demais podem causar ansiedade, câncer, sequelas de intervenções médicas desnecessárias, entre outros males e enfermidades.

Parece besteira, mas esse é o início de uma anamnese ou entrevista médica. Na minha opinião, uma boa consulta ainda é a maior ferramenta diagnóstica de um médico, não os exames complementares. Ainda que estes se façam bastante importantes, não podem substituir ou tirar a importância do exame clínico. Só a partir de uma boa consulta e da formulação de hipóteses diagnósticas os exames devem ser solicitados, de forma individual para cada paciente. Até mesmo ocheck up deveria ser personalizado de acordo com as queixas do paciente e seu histórico médico, principalmente a partir da meia idade, mas dificilmente é assim. Digo isso por diversas razões:
A primeira delas: evitar os “incidentalomas”, anormalidades encontradas por acaso num exame solicitado pelo medico para outro fim. Os campeões do momento são os nódulos de tireoide. Quando pergunto ao paciente o porquê de se ter realizado o ultrassom na glândula, a resposta que mais ouço é: “o meu médico é super cauteloso, ele sempre pede exame para tudo”. Perfeito. Se o exame vem normal, pode-se ter certa segurança de que tudo vai bem. Mas, e quando são detectados os tais nódulos? Em 99% das vezes eles são benignos e não causam mal nenhum- similares às manchas na pele. O problema é que ninguém aguenta, hoje em dia, viver com a dúvida. Para se certificar de que não há nada de errado com o nódulo, o paciente se submete a biópsias, repetição de exames, cirurgias e outros procedimentos desnecessários.

A segunda razão: exagerar nos exames pode desencadear enfermidades. Há pessoas, que fazem, por exemplo, um exame chamado PETScan (nos quais se recebe uma alta carga de radiação) por semestre na tentativa de “prevenir” câncer. Na verdade se estaria detectando um câncer, talvez num momento precoce, e não prevenindo. Enfim, suponhamos que depois de alguns semestres detecte-se um câncer num estágio inicial. Façamos a seguinte reflexão: o câncer foi detectado pelo exame ou foi causado por ele e a alta carga radiativa a que o paciente foi submetido? Provavelmente, os dois. Mas nesse caso, a prevenção causou a doença.

O PETScan é um dos exames com maior carga de radiação recebido pela paciente (cerca de 500 radiografias de tórax simples). As tomografias computadorizadas, cada vez mais disponíveis, equivalem uma exposição à cerca de 300 (trezentas) radiografias simples por exame. Será que o médico que está pedindo esse tipo de exame de forma recorrente está realmente preocupado com a saúde do paciente a longo prazo? Não estou de forma alguma desmerecendo o valor diagnóstico desses exames, estou apenas levantando um contraponto. Muitos exames são realizados para a prática da chamada medicina defensiva. Muitos testes, porém, são realizados porque é menos trabalhoso pedir o exame do que entrar em atrito com o paciente. Ou ter que explicar a ele tudo que está supracitado. Muitos são realizados por imprudência ou desconhecimento técnico do próprio médico.

O fato é que exames demais podem causar ansiedade, câncer, sequelas de intervenções médicas desnecessárias, entre outros males e enfermidades. Por isso, a Sociedade Americana de Medicina criou uma série de tópicos para facilitar o diálogo entre pacientes e médicos sobre a necessidade ou não de certos exames. A lista dos tópicos choosing wisely – escolha sabiamente, numa tradução literal, ainda não disponível em português -, contou com a aderência de quase todas as associações de especialistas dos Estados Unidos, abordando indicações e contra-indicações da realização de exames e procedimentos. Essa ainda é uma cultura nova nos Estados Unidos e também aqui no Brasil. No entanto, vale a reflexão sobre o tema. Não deixe de abordar o assunto com o seu médico.

Paulo Camiz é professor, clínico geral e geriatra da Universidade de São Paulo e Hospital das Clínicas de São Paulo

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